
Dia 14 de agosto de 2022, com um ano e vários meses de nomadismo digital, fui ver um pôr do sol em Tibau do Sul.
Tibau é o município ao qual pertence Pipa, cidade na qual morei por oito meses, depois por um mês, depois por mais dois meses… Tibau é uma tranquilidade só. Ao contrário de sua vizinha famosa, é calma e silenciosa. Pacta mesmo! Mas linda igual.
Em Tibau do Sul é que mora a maior parte dos nativos que, antes, viviam em Pipa. Empurrados pela especulação imobiliária que o turismo traz (o meu turismo, inclusive), mudaram pras cidades próximas como Goianinha e…Tibau. E os nativos nascidos lá mesmo também seguem firmes na região.
Um deles eu conheci naquele dia. Dia 14 de agosto de 2022. Dia de ver um pôr do sol em Tibau do Sul. Vi Seu Severino sentado na porta de sua casinha de parede amarela, tecendo uma rede de pescar bem bonita. Era uma tarrafa, dessas que tem chumbo na ponta pra afundar e prender um tanto bom de peixe de uma vez só.

Desde que comecei minha vida nômade e morei em algumas vilas de pescador, desenvolvi uma grande apreciação pela tarrafa e pelas mãos habilidosas de quem a joga e a tece. Talvez por isso, me deu uma vontade enorme de conversar com o Seu Severino. Saber sua história e, se ele permitisse, até registrar aquela cena bonita que vi.
Ele deixou. Mas não antes de me ensinar a jogar a tal da rede, mostrar como é pesada, e exibir a habilidade dele no meio da rua mesmo. Fiquei feliz. E sem querer, escrevi um poema pra ele. No Instagram, publiquei assim:
Seu Severino pesca por hobby. Tece a rede nas horas livres. Joga a tarrafa pra ser feliz. Assa o peixe pra comer bem. Tarefa dura e pesada que ele faz nas horas vagas. Porque de ofício, é pedreiro. 70 anos e constrói casas. Constrói também barcos. 70 anos e não pode parar. Pode pescar, mas não pode parar.
Quase um ano depois disso, em 13 de julho de 2023, voltei pra Tibau do Sul pra comemorar meu aniversário. E quando já tava indo embora, ganhei um presente. Seu Severino tava de novo na porta de casa. E melhor: com uma caixa de som cheia de luzes, ouvindo um belo dum piseiro. Eu fui lá…
Suspeitei que ele não se lembrasse de mim. Aceitei que eu não tive pra ele nem metade da importância que ele teve pra mim. E me apresentei de novo. Disse que quase um ano antes a gente se conheceu e eu fiz umas fotos. Perguntei se eu poderia ler o que eu escrevi sobre a vida dele. Ele deixou. Ouviu. E respondeu: “é. ainda não parei não”.
Como se eu já não estivesse feliz com esse presente, veio aproximando uma moça, que minha emoção me fez esquecer de perguntar o nome. Seu Severino disse: “olha minha filha aí. Lê pra ela esse texto bonito”, com um tom orgulhoso de ter virado pauta de alguém.
Eu li. Chorei. Entendi que Seu Severino me deu algo que eu precisava muito e não sabia. Aprovação para por minhas ideias no mundo.
To acostumada a mostrar meus textos por aí. Fui repórter por muito tempo. Trabalhei mais de 10 anos em finanças. Escrevi para grandes veículos especializados. Sabia que muitos de meus textos foram lidos por presidentes de grandes empresas, inclusive banqueiros. Mas na boa: pra banqueiro não ligo não.
O que eu precisava era isso. Um Seu Severino interessado o suficiente pra desligar o piseiro e me ouvir. E satisfeito o suficiente pra pedir: “olha minha filha aí. Lê pra ela esse texto bonito”.
É pra isso que eu viajo.
